Conviver com uma bolsa de ostomia envolve desafios que vão muito além da saúde física. A preocupação com o vazamento de fezes, o receio de odores, a insegurança com a própria imagem e o temor pelo preconceito fazem parte da rotina de muitos pacientes. Diante desse cenário, algumas iniciativas buscam dar mais visibilidade às pessoas ostomizadas. Uma delas é o Bolsas que Empoderam, que une moda, inovação e cuidado, transformando a bolsa de ostomia em um símbolo de orgulho, sobrevivência e pertencimento.
Lançado em março deste ano, o projeto é uma ação do hospital A.C Camargo Cancer Center, pacientes ostomizados da instituição e alunos do curso de pós-graduação em processos criativos em modelagem da escola Senac Lapa Faustolo (SP), que criaram dois acessórios funcionais para serem usados junto às bolsas de ostomia, aliando moda, design, estética e conforto.
Um dos participantes do projeto, o contador Humberto Lugão Monteiro, 65, destaca a experiência de ter colaborado com as modistas e estilistas, explicando o que poderia ser mais confortável e funcional para quem utiliza bolsa de ostomia. “A criação de bolsas estilizadas, que combinam com as roupas e funcionam como acessórios fashion e da moda, dão a sensação de que podemos levar uma vida normal. Isso impacta positivamente na nossa autoestima, bem-estar e saúde mental”, Humberto Lugão Monteiro
Diagnosticado com câncer no fígado e no reto em 2025, o contador foi submetido a uma cirurgia de emergência após o tumor no reto ter perfurado o intestino. Durante o procedimento, ele teve o reto e parte do intestino removidos e passou a utilizar uma bolsa de colostomia de forma permanente.
“Uma das minhas maiores preocupações é fazer a limpeza e a troca da bolsa corretamente. A placa que fixa a bolsa precisa ser cortada no tamanho exato do estoma: se ficar maior, pode haver vazamentos e gerar um desconforto com a sujeira. Se for menor, pode causar dor e sangramento. Em casa é mais fácil administrar, mas na rua, nem sempre há uma estrutura adequada para fazer isso com tranquilidade”, diz.
Projeto une moda, saúde e impacto social
De acordo com Fernanda Martines, coordenadora de Negócios Educacionais do Senac, o Bolsas que Empoderam foi desenvolvido em várias etapas, incluindo a visita dos alunos ao hospital, conversa com pacientes para entender suas dificuldades e necessidades, encontros técnicos com os profissionais de saúde para aprofundar os conhecimentos clínicos e práticos sobre o uso da bolsa.
A partir daí, os alunos desenvolveram os protótipos com foco em modelagem, conforto e estética. Posteriormente, os acessórios foram testados pelos pacientes, que avaliaram aspectos como usabilidade, funcionalidade e conforto, permitindo ajustes antes da versão final. As capas para as bolsas de ostomia foram desenvolvidas como trabalhos de conclusão de curso e avaliadas em um concurso apresentado durante o 4º Fórum Senac de Modelagem Criativa, no MIS Experience. “O Senac é uma escola que propõe o ensino por projeto e a parceria com o hospital foi uma oportunidade de conectar a formação acadêmica a uma problemática e a um desafio real. O Bolsas que Empoderam mobilizou as competências desenvolvidas ao longo do curso, contribuindo para a humanização do design de moda”, comenta Fernanda Martines.
“Usar a bolsa me traz alívio e qualidade de vida”
Uma outra participante do projeto, a fonoaudióloga e produtora de conteúdo Bruna Martinovic, de 35 anos, afirma que toda visibilidade é importante, quando vem acompanhada de uma iniciativa que se orgulha de um corpo com uma bolsa de ostomia, tornando-o mais potente.
“A campanha expõe a diversidade, a importância de dar espaço para a diferença, para corpos que sofrem opressões (raciais, estéticas, sociais) em uma sociedade tão normativa. É um projeto que fala sobre representatividade, sobre expor que ‘sim, está tudo bem, eu posso aceitar essa forma de fazer cocô e tenho orgulho de estar viva“ Bruna Martinovic. Convivendo com lúpus e com a síndrome de Ehlers-Danlos (SED), Bruna teve algumas complicações devido à SED, desencadeando uma condição chamada inércia colônica, que ocorre quando o intestino grosso (cólon) fica muito lento ou praticamente para de funcionar. Com o acúmulo de fezes e o risco de rompimento do cólon, a fonoaudióloga teve que fazer uma colectomia total (retirada do intestino grosso) em 2023 e passou a utilizar uma bolsa de ileostomia de forma temporária.
Para Bruna, o uso da bolsa representou uma mudança positiva, associada a alívio e tranquilidade. “Eu já estava doente há tanto tempo, meu corpo já tinha passado por tantas transformações, que a bolsa me deu a chance de continuar viva. Hoje, tenho episódios de diarreia uma vez por semana, mas a bolsa me dá liberdade para passar por esses momentos sem desconforto, angústia ou a urgência de precisar ir ao banheiro”, conta. Mesmo com a possibilidade de reverter a ileostomia — ligando o intestino delgado diretamente ao reto — Bruna não cogita essa alternativa. “Os médicos me deram essa opção, mas faz muito mais sentido continuar com a bolsa porque ela me traz qualidade de vida”, afirma
No Brasil, estima-se que existam cerca de 400 mil pessoas ostomizadas, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Segundo Paula Moura, coloproctologista do Centro de Referência em Tumores Colorretais do A.C.Camargo Cancer Center, só em 2025, o hospital implementou 84 bolsas de ostomia. Para a especialista, iniciativas como o Bolsas que Empoderam são essenciais para melhorar a autoestima dos pacientes. “É importante que os pacientes entendam que é possível ter uma vida parecida com a que tinham antes da ostomia, fazendo algumas adaptações. A ostomia fará parte da vida dele e é graças a ela que eles estão vivos”. As duas capas desenvolvidas pelo projeto permanecem como protótipo no Senac. Atualmente, o Bolsas que Empoderam está em busca de parceiros da indústria têxtil para viabilizar a produção dos acessórios em larga escala, beneficiando os pacientes que utilizam bolsas de ostomia.
Tire dúvidas sobre ostomia:
O que é uma ostomia (estoma)?
É uma abertura criada cirurgicamente no abdômen para a saída de fezes ou urina, funcionando como um coletor. É essencial para a sobrevivência do paciente, pois é por meio da ostomia que o corpo realiza a função de excreção, eliminando resíduos urinários e fecais. Sem essa eliminação, o organismo não funciona corretamente, e a pessoa pode até morrer.
Quais os principais tipos de ostomia?
Colostomia: (ostomia é realizada no cólon ou intestino grosso); ileostomia (é feita no intestino delgado, especificamente no ileo);
urostomia (é feita no aparelho urinário)
Quais são as principais doenças ou condições que necessitam o uso de uma bolsa de ostomia?
Principais doenças são câncer colorretal;
Diverticulite;
Obstruções intestinais.
O uso da bolsa pode ser temporário ou definitivo?
Sim, depende da doença e do procedimento realizado. Na ostomia temporária, é possível reverter a cirurgia, permitindo que o paciente volte a evacuar ou urinar normalmente sem a bolsa. Já na ostomia definitiva, a reversão não é possível — por exemplo, quando o ânus é retirado – e o paciente passa a depender da bolsa permanentemente.
Quais são os cuidados básicos que uma pessoa ostomizada deve ter no dia a dia?
Evitar esforços excessivos: não levantar muito peso para reduzir o risco de hérnia ao redor do estoma;
Manter a bolsa bem vedada: para impedir vazamentos de fezes ou urina, que podem irritar ou machucar a pele;
Manter uma higiene adequada: limpar corretamente a pele ao redor do estoma, trocar a bolsa nos intervalos recomendados e
utilizar produtos específicos para proteger a pele, prevenindo irritações, infecções e garantindo conforto no dia a dia.
Fonte: UOL
Imagens: Divulgação
